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Ciclo de Conferências APET/Universidade do Minho - Jornadas de Línguas Aplicadas (22 e 23 de Abril)

18/04/10 · · 0 comentários

Conferência APET / Universidade do Minho
22 e 23 de Abril de 2010

Mercado da tradução • Formação em tradução
Gestão de projectos • Qualidade: EN 15038
CAT Tools • Workshops • Networking

EN 15038... um passo para mais qualidade!
A tradução é nos dias de hoje vista como uma actividade altamente profissionalizada que requer um elevado nível de rigor e qualidade.

Gestão de Projectos... é parte intrínseca do processo!
O recurso a tecnologias avançadas e a gestão de projectos eficiente, rentável e com qualidade contribuem directamente para o sucesso de qualquer projecto e são elementos incontornáveis de diferenciação.

CAT Tools... para recursos humanos especializados!
No mercado global, a evolução tecnológica associada à tradução atingiu proporções jamais vistas, que obrigam a uma constante valorização dos recursos humanos e técnicos, sob pena de se perder vantagens concorrenciais indispensáveis a uma moderna actividade profissional e empresarial.

NETworking... os bons momentos proporcionam bons negócios!
São, no entanto, os momentos de partilha e convívio entre os nossos pares que nos levam até outras fronteiras e nos abrem os olhos para as mais variadas realidades.

Destinatários: Empresas de tradução, tradutores freelancer, alunos, recém-licenciados e professores na área da tradução.

Programa, ficha de inscrição e outras informações úteis aqui.

Curiosidades sobre letras e palavras

16/07/09 · · 9 comentários

Recebi o conteúdo que se segue numa newsletter dedicada às línguas e tradução. Decidi traduzir estas curiosidades, acrescentar alguma informação adicional e partilhar aqui as pérolas. Não sei se algumas delas serão mesmo verdade, mas não deixam de ser interessantes.

  • A letra mais antiga é o "O".
  • Em Chinês, a palavra "hieróglifo", que significa "dificuldade, problema", é representada por duas mulheres debaixo do mesmo tecto.
  • O alfabeto da língua khmer (idioma oficial do Cambodja) é composto por 72 letras, enquanto o alfabeto da língua rotokas (falada na ilha Bougainville, Papua Nova Guiné) tem apenas 11.
  • Na língua inglesa existem 600.000 palavras.
  • Só na Idade Média é que a letra W (originalmente a junção de V + V) foi incluída no alfabeto latino, de forma a representar sons das línguas germânicas que não existiam no Latim Medieval.
  • Ernest Vincent Wright, autor americano, escreveu o livro "Gadsby" sem utilizar a vogal "E", excepto na introdução e numa nota final.
  • Não existem palavras em Inglês que rimem com "month", "orange", "silver" e "purple".
  • O vocábulo "almost" em Inglês é a palavra mais comprida que utiliza todas as suas letras por ordem alfabética.
  • O presidente americano Benjamim Franklin reuniu cerca de 230 sinónimos da palavra "drunk", publicando "The Drinker's Dictionary", em 1736, na The Pennsylvania Gazette (pode ser consultado aqui).
  • A língua ubykh (do grupo de línguas caucasianas do noroeste), extinta em 1992, possuía 84 fonemas consonânticos e apenas uma vogal.

Em defesa da Língua Portuguesa

08/07/09 · · 1 comentários

Mais um acordo que "promete" trazer consequências graves para a economia nacional e, acima de tudo, para a Língua Portuguesa.


A ler as razões da petição e assinar em: http://www.peticaopublica.com/?pi=traducao

Globalização e línguas em risco de extinção

12/04/09 · · 4 comentários

A globalização a que vamos assistindo em todos os sectores, juntamente com a comunicação que é cada vez mais intercultural, constituem-se como dois dos factores que mudaram o paradigma em relação à profissão do tradutor. De facto, através do efeito GILT [acrónimo para Globalização (G11N), Internacionalização (I18N), Localização (L10N) e Tradução (T9N)], a profissão de tradutor foi uma das primeiras a ser globalizada. No entanto, esta mesma globalização e comunicação intercultural fará com que metade das cerca de sete mil línguas faladas em 2007 morra até ao fim deste século.

Segundo Wade Davis, antropólogo, etnobotânico e explorador residente da revista National Geographic,
"cada língua é uma floresta ancestral da mente, um manancial de pensamento, um ecossistema de possibilidades espirituais".
De facto, a língua é a mais profunda expressão de identidade de um grupo, sendo simultaneamente o meio mais eficaz de transmitir o seu rico património cultural e humano de geração em geração. No entanto, o paradoxo da globalização é que, ao mesmo tempo que promove o contacto íntimo com culturas e línguas estrangeiras (miscigenação de culturas), faz diluir a diversidade cultural existente. Neste sentido, milhares de tradições culturais e linguísticas desaparecem com a adopção/fusão/assimilação das línguas dominantes.

Segundo a edição especial da National Geographic Portugal - O Estado do Planeta (Maio de 2008) encontrado cá por casa nas arrumações,
"o processo de extinção das línguas começa por revestir a forma de discriminação e culmina em assimilação. O nosso mundo urbano e globalizado é impiedoso para milhares de línguas locais que outrora serviram como elemento de consolidação de vínculos familiares, tribais e nacionais. Na era da integração, estamos a perder elos vitais com a nossa história remota e mananciais únicos de conhecimento, sabedoria e cultura".
Das cerca de 6700 línguas existentes, 3586 são consideradas línguas pequenas, 2935 são médias e apenas 83 consideradas grandes. Na razão inversa, há 8 milhões de falantes das línguas pequenas, 1200 milhões de falantes das línguas médias, e 4500 milhões de falantes das línguas grandes. Todas essas línguas pequenas estão, portanto, ameaçadas de extinção, do grau mais reduzido para o mais severo. Note-se que à semelhança das espécies biológicas, as línguas são também mais numerosas e variadas em algumas regiões do globo, concentrando pontos de grande actividade linguística com muitas línguas ameaçadas sem qualquer relação entre si. Por exemplo, na Austrália o grau de diversidade linguística atinge 231 línguas, na Indonésia 737 e na Papua Nova-Guiné 820. Verdadeiros paraísos linguísticos e biológicos. Muitas destas línguas, faladas por aborígenes, curandeiros, grupos tribais ou outros, são autênticos repositórios de conhecimento sobre plantas medicinais, animais e minerais. Quem não gostaria de recolher, e até mesmo falar, um pouco de algo único que a globalização e a miscigenação de culturas nos está a fazer perder?

Para mais informações, consultem-se as páginas da UNESCO sobre as línguas ameaçadas, incluindo um atlas electrónico e em versão pdf (20 MB).

O tempo é de férias e de balanço

24/08/08 · · 1 comentários

E bem merecidas!

Depois de quatro meses de estágio, que me fizeram descobrir a realidade da tradução em contexto empresarial e aplicar os conhecimentos adquiridos na licenciatura, com mais mês e meio a elaborar o relatório escrito do mesmo, penso que é tempo agora de descansar a mioleira e de fazer um balanço desta viagem que, na totalidade, durou quatro anos. Falo, pois, do período compreendido entre 2004 e 2008, passado entre a cidade dos arcebispos e a cidade capital da cereja.

Não tenho quaisquer dúvidas de que estes quatro anos em Línguas Estrangeiras Aplicadas (licenciatura agora conhecida por Línguas Aplicadas, devido à reformulação que o processo de Bolonha trouxe) foram um dos pontos altos da minha vida, senão mesmo o ponto alto. Preparando o terreno no Fundão ainda na escola secundária, foi em Braga que comecei a fazer com mais dedicação aquilo de que efectivamente gosto - aprender e estudar línguas estrangeiras, em especial a tradução. Logo no início da licenciatura procurei começar a definir este caminho, interessando-me especialmente pela área. A segunda parte do curso foi, também, mais virada para a tradução, facto que se veio decididamente a comprovar no último ano. Esse ano, navegando a um ritmo alucinante e trabalhoso, foi quase totalmente dedicado à área, nomeadamente através da disciplina de Tradução Especializada e do estágio curricular. Felizmente, este estágio, como disse num post anterior, foi feito num jovem gabinete de tradução de Braga, o que me permitiu estar em contacto com a realidade do mercado da tradução. Aqui pude cumprir amplamente as minhas expectativas e desejos que em teoria se vinham acumulando.

Foi também em Braga que conheci aquelas que se revelaram ser óptimas pessoas e, sobretudo, Amigos com "A" maiúsculo. Com elas passei a maior parte deste tempo, com elas partilhei um caminho que se foi construindo e com elas registei momentos inesquecíveis: a conviver, a estudar, a ser praxado e a praxar, a trabalhar, a passear, a estagiar, ... Obrigado a tod@s, não poderia deixar de agradecer =) Espero, como é óbvio, que este caminho não fique por aqui, que a construção continue. E eu sei que vai continuar!

Cabe-me também agradecer em especial àquela que conheci já lá vão dois anos e cujos momentos foram (e são) passados a namorar, a "aturar" mutuamente, a descobrir e a partilhar. Sei que já estamos grandes, mas tenho a certeza de que o nosso crescimento não parará!*

Sentimentalismos à parte, o futuro ou a próxima fase ainda se encontra meio incerta mas espero poder defini-la daqui a algum tempo... O meu desejo seria poder continuar em Braga, rodeado de dicionários e ferramentas de tradução, com os amigos e pessoas do costume, descendo habitualmente às Fundacerejas e subindo depois à Augusta Bracara. Será que é pedir muito? ;)

Estágio

21/02/08 · · 2 comentários


Dei início ao meu estágio curricular, com a duração prevista de quatro meses, no dia 18 de Fevereiro, na INOVTRAD - uma jovem empresa de tradução, formação e serviços sedeada em Braga.

De entre os
objectivos para o meu plano de estágio destaco os seguintes: tradução e retroversão (em Inglês e Francês), organização de memórias de tradução, elaboração de glossários e base de dados, e formação em ferramentas de tradução (CAT tools).

Como é óbvio, conto dar 200% de empenho e dedicação, com o objectivo de cumprir tudo o que me é proposto e de construir uma sólida bagagem e experiência nesta área.

Portanto, se andar um pouco ausente destas andanças do sub-mundo dos
blogs, já sabem o motivo! :P

Pensamento e linguagem

03/02/08 · · 0 comentários

Mais um artigo que me pareceu interessante e recolhi já há uns tempos. Sobre a formação da linguagem e a possibilidade de um dia podermos ler pensamentos. Um misto de polémica e de futurismo a propósito do tema dos estudos cerebrais.

Tim Crow
Em breve seremos capazes de ler pensamentos
As ideias nascem num hemisfério do cérebro e, depois, são transformadas em discurso no outro. Graças aos dois compartimentos de massa cinzenta que temos dentro da cabeça, somos diferentes dos chimpanzés. E, precisamente porque pensamos, já estamos próximos de compreender o berço do pensamento, sugere o investigador britânico


Tim Crow é polémico, mas defende as suas ideias com uma calma e clareza que impressionam. Conversamos com o psiquiatra inglês no Centro de Estudos Portugueses do Instituto Camões em Oxford, em Inglaterra: ele fala num tom baixo e compassado, discorda da teoria evolucionista de Darwin como quem está a contar uma história às crianças. E fala sobre a possibilidade (cada vez "mais próxima") de "lermos" os pensamentos humanos como quem diz que quer lulas para o almoço.
Talvez seja a sabedoria acumulada de quem nasceu em 1938, talvez seja a segurança de alguém que acredita piamente na sua teoria [...].
Não sabemos exactamente por que é que Tim Crow fala assim das suas convicções científicas, mas sabemos que o pensamento antecede o discurso. Mas conseguiremos algum dia aceder ao patamar invisível das ideias, construído algures no nosso cérebro? "Acredito que sim, creio que estamos próximos disso", afirma o investigador da Universidade de Oxford.

Os pensamentos são, em última instância, um conjunto de impulsos eléctricos que atravessam as nossas células nervosas (e os neurónios). Então por que é que ainda não conseguimos descodificá-los? Não podemos seguir esses pequeninos choques que viajam pelo cérebro? "Sim, mas só até um determinado ponto", diz Tim Crow.
O autor de The Speciation of Modern Homo Sapiens explica que a transformação do pensamento em palavras articuladas é um processo sofisticado que depende dos dois hemisférios cerebrais - e daí a dificuldade de seguir-lhes o rasto.

Ideias num lado, fala noutro
"O que eu considero interessante é a coexistência de quatro compartimentos do cérebro que permitem a transformação do pensamento em discurso. Cada compartimento tem uma função diferente, o pensamento e a fala estão associados mas ocupam lugares diferentes da nossa cabeça", esclarece Tim Crow, director honorário do Centro Internacional de Investigação em Esquizofrenia e Depressão Príncipe de Gales.
É como se tivéssemos diferentes gavetinhas dentro do crânio: cada uma acomoda dados e processos diferentes, mas não são divisórias estanques. Os tais compartimentos comunicam-se, apesar de poderem estar na porta direita ou esquerda do guarda-fatos que é o cérebro. Chama-se a isto a lateralização das funções do cérebro, ou seja, a distribuição das actividades cerebrais pelos seus dois hemisférios, dois grandes gomos de massa cinzenta que estão em permanente contacto ou cooperação, embora sejam muito ciosos das suas próprias tarefas.
Para já, conseguimos apenas observar o cérebro consciente a funcionar. E isto não é pouco. Os laboratórios de neurociências envidam cada vez mais esforços para compreender o que se passa dentro de um cérebro vivo e pensante, utilizando para o efeito diferentes técnicas - a análise dos padrões de actividade electromagnética no interior da cabeça, por exemplo, ou a menor ou maior afluência de sangue em zonas distintas dos tecidos nervosos. As tecnologias de imagiologia cerebral de última geração permitem mesmo o estudo de processos cerebrais que duram um milésimo de segundo!

Os dois gomos do cérebro
Parece estranho, mas a famosa teoria de Tim Crow envolve elementos aparentemente desconexos como a psicose e a evolução do homem moderno. O psiquiatra britânico propõe que a origem da maioria dos casos desta doença mental está associada à assimetria do cérebro, uma característica que também está especificamente ligada ao domínio humano da linguagem.
Por outras palavras, a linguagem e a psicose teriam uma origem evolutiva comum: uma mutação genética que permitiu aos dois hemisférios cerebrais funcionar com algum grau de independência. Assim também nasce a frase mais citada do cientista: "A esquizofrenia é o preço que o Homo sapiens tem de pagar pela aquisição da linguagem."
"O aparecimento da linguagem não foi gradual", garante o investigador, que põe assim por terra os dogmas darwinistas da selecção natural ao longo do tempo. Para Tim Crow, a capacidade do homem moderno dominar a linguagem foi fruto de um "acidente genético". Houve uma mutação (a translocação repetitiva do gene da protocaderina) há cerca de 150 mil anos e... tchanan! Um indivíduo do sexo masculino ganhou uma capacidade que nenhum outro tinha e, por isso mesmo, defende Crow, tornou-se um tipo mais interessante para as companheiras da caverna.
Esta alteração foi sendo aprimorada à medida que as mulheres escolhiam os parceiros sexuais mais eloquentes, o que também permitiu a transmissão do erro genético localizado apenas no cromossoma masculino, o Y, para o cromossoma X.
Então quer dizer que o homem começou a falar antes da mulher? "Sim, mas as mulheres são mais rápidas a apreender novas palavras", garante Tim Crow. Isso é o que ele sabe (e o que sabe comenta com tranquilidade, já sabemos) mas há infinitas coisas que ainda não descobriu - e são exactamente essas que fazem os seus olhos brilharem e a sua voz ganhar entusiasmo.
"O ponto crucial é na mudança do X. Ainda não sabemos exactamente quando é que isso aconteceu", lamenta o investigador. Também ainda está por provar, por exemplo, que é o gene responsável pela expressão da protocaderina o responsável pela lateralização do cérebro.
As ideias de Tim Crow são polémicas q.b. A teoria em voga é a de que a linguagem surgiu algures entre sete milhões de anos (quando partilhamos o último antepassado comum com os chimpanzés) e 150 mil anos (origem do Homo sapiens). Quando falamos de linguagem, referimo-nos a uma comunicação sintáctica, algo bem mais complexo do que o canto dos pássaros para avisar que um predador se aproxima.
A incorporação da gramática terá sido a última (e mais decisiva) etapa no desenvolvimento da linguagem. Com ela, as palavras tornam-se legos que podem ser combinadas das mais diversas formas para que possamos expressar as nossas ideias, sentimentos e projectos. E os homens, seja por uma teoria seja por outra, ganharam o dom de filosofar, criar modelos econométricos e até máquinas para ler os pensamentos alheios.

SOARES, Andréia (2007), "Em breve seremos capazes de ler pensamentos". Público - P2, 30 de Novembro, pp. 5-7.

Lei, ortografia e liberdade

30/01/08 · · 0 comentários

Sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aqui fica a opinião de Desidério Murcho. Porque uma língua é muito mais do que um simples produto mercantil nas mãos de políticos que legislam demais sobre umas matérias e de menos sobre outras...

Pensar outra vez

Agora que estamos perante o anunciado facto consumado de mais uma modificação legal da ortografia da nossa língua, que afinal não parece ser nossa, vale a pena pensar outra vez nesta questão. Independentemente de saber se a nova ortografia é linguisticamente melhor, ou se há vantagens políticas numa ortografia unificada com o Brasil e os outros países lusófonos, a questão fundamental não parece ter sido discutida. E é esta: até que ponto faz sentido legislar sobre a língua?

Devemos legislar exclusivamente sobre aquilo que ficaria pior se não legislássemos. Este é um princípio evidente quando prezamos a liberdade. Mas é claro que a cultura portuguesa nunca foi receptiva à ideia de liberdade, e pelo contrário seguimos o princípio de legislar sobre tudo o que é possível legislar. Caso o princípio de liberdade estivesse enraizado na nossa cultura, encararíamos com assombro a ideia de fazer leis sobre a ortografia. Não há tal coisa, tanto quanto sei, nos países de língua inglesa; e no entanto os livros americanos e ingleses circulam entre os dois países sem dificuldade.

A mentalidade salazarista portuguesa é tal que mal se fala de não legislar sobre a língua algumas pessoas imaginam que se trata de cada qual escrever à sua maneira. Não é disso que se trata, mas antes de permitir que as normas linguísticas evoluam naturalmente, por força das publicações relevantes dos especialistas: dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais.

É contraditório defender a evolução natural da língua, e ao mesmo tempo defender a legislação sobre a língua - pois legislar sobre a língua é impedir a sua evolução natural. Sem legislação, certas formas ortográficas e gramaticais serão gradualmente introduzidas, tal como certas palavras são acrescentadas ao léxico; e certas formas ortográficas e gramaticais serão abandonadas, como acontece também com o léxico. Imagine-se o que seria fazer uma lei sobre as palavras que pertencem ou deixam de pertencer ao léxico da língua portuguesa: isso não seria uma contribuição para a evolução natural do léxico. Para a evolução de uma língua ser natural tem de se basear no modo como realmente as pessoas usam a língua, e não no modo como um político qualquer decide que devemos escrever - ainda que se rodeie dos melhores linguistas. Qualquer linguista pode e deve propor as mudanças linguísticas que bem entender; mas propor, escrevendo gramáticas e dicionários, é muito diferente de obrigar-nos legislativamente a escrever "ótimo" em vez de "óptimo".

A discussão sobre o acordo ortográfico não deve abordar exclusivamente a questão de saber se é linguisticamente acertado ou comercialmente vantajoso. Deve abordar também a questão mais fundamental de saber que tipo de sociedade queremos ser: uma sociedade que preza a liberdade, ou uma sociedade centralista, sufocada por leis sem as quais a vida não seria previsivelmente pior.


MURCHO, Desidério (2008), "Lei, ortografia e liberdade". Público - P2, 29 de Janeiro, p. 3.

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